

Existe uma lista não oficial, não escrita e absolutamente universal de coisas que a gente faz, mas finge com uma convicção impressionante que não faz, como se houvesse um acordo silencioso entre todos nós de manter certas pequenas verdades muito bem guardadas no campo do “isso nunca aconteceu comigo”. E o curioso é que, se alguém resolve admitir uma dessas coisas em voz alta, imediatamente surge um coro de identificações meio constrangidas, meio aliviadas, como quem finalmente percebe que não está sozinho nesse pequeno teatro cotidiano que todos nós, em maior ou menor grau, encenamos com uma naturalidade quase profissional.
Porque, vamos combinar, todo mundo já abriu a geladeira sem estar com fome, apenas para ver se algo mágico apareceu ali nos últimos cinco minutos, como se a geladeira tivesse uma vida própria e fosse capaz de surpreender a qualquer momento, e depois fechou a porta fingindo que estava só “dando uma olhada rápida”, como se isso fosse completamente diferente do que realmente foi. Da mesma forma, existe aquele momento clássico de pegar o celular para ver uma coisa específica e, quando percebe, já está rolando a tela sem nem saber exatamente o que está procurando, até que, de repente, surge um leve desconforto ao lembrar que havia um propósito inicial que simplesmente se perdeu no meio do caminho, mas tudo bem, a gente segue como se fosse parte do plano.
Tem também aquela situação em que a gente lê uma mensagem, entende perfeitamente o conteúdo, até pensa em responder, mas decide deixar para depois, e esse “depois” se transforma em um limbo temporal onde a mensagem fica ali, pairando, enquanto a gente evita abrir a conversa novamente só para não encarar o fato de que já passou tempo demais para responder com naturalidade. E, claro, quando finalmente responde, surge aquela tentativa quase artística de agir como se tivesse visto naquele exato momento, como se o tempo não tivesse passado, como se tudo estivesse perfeitamente dentro do fluxo esperado.
E quem nunca ensaiou uma conversa inteira na própria cabeça, com direito a argumentos impecáveis, respostas rápidas e até aquele fechamento digno de aplauso, para no final nunca dizer absolutamente nada do que foi planejado, simplesmente porque o momento passou, ou porque a coragem resolveu tirar um pequeno intervalo bem na hora decisiva? E ainda assim, no dia seguinte, lá está a mente retomando o roteiro, ajustando detalhes, criando novas versões, como se aquela conversa ainda estivesse prestes a acontecer a qualquer momento.
Existe também um talento coletivo pouco reconhecido que é o de revisar mentalmente situações antigas, como se fosse possível voltar no tempo apenas para melhorar uma resposta, ajustar uma reação ou dizer algo mais inteligente do que foi dito na hora, mesmo sabendo, no fundo, que isso não muda absolutamente nada além de criar um pequeno loop de pensamentos que insiste em revisitar algo que já passou. Mas a gente faz mesmo assim, com uma dedicação admirável.
E não dá para ignorar aquele hábito quase automático de olhar o próprio reflexo em qualquer superfície minimamente espelhada, seja uma vitrine, a tela apagada do celular ou até o vidro do carro, como se fosse apenas uma checagem rápida, despretensiosa, quando na verdade existe ali uma curiosidade legítima sobre como estamos sendo vistos pelo mundo naquele exato momento. E tudo bem, faz parte, embora a gente dificilmente admita com tanta clareza.
O mais interessante em tudo isso é que essas pequenas “encenações” do dia a dia não têm nada de grave, pelo contrário, elas revelam um lado extremamente humano, quase divertido, de como lidamos com nós mesmos, com o tempo, com as expectativas e com essa tentativa constante de parecer um pouco mais organizado, mais coerente ou mais no controle do que realmente estamos. No fundo, essas pequenas negações são só uma forma leve de suavizar a própria imperfeição, de tornar a rotina mais interessante, de rir de si mesmo sem precisar anunciar isso para o mundo.
E talvez seja justamente isso que torna tudo mais leve, perceber que ninguém está tão distante assim dessas pequenas contradições, que todo mundo, em algum momento, já se pegou fazendo exatamente aquilo que juraria nunca fazer, e que tudo bem, porque no meio dessas pequenas incoerências mora uma parte importante de quem a gente é, uma parte que não precisa ser corrigida, apenas reconhecida com um certo bom humor. Afinal, entre o que a gente faz e o que a gente finge que não faz, existe um espaço enorme de humanidade, e talvez seja ali que a vida acontece de um jeito mais verdadeiro, menos perfeito e, curiosamente, muito mais interessante.