

A infância sempre foi um território de descobertas, erros, imaginação e construção lenta da identidade. É o tempo do brincar sem pressa, do aprendizado que nasce da curiosidade, do afeto como base de tudo. Mas, nas últimas décadas — e de forma ainda mais intensa nos últimos anos — esse território passou a dividir espaço com telas, algoritmos e uma exposição constante que nem sempre respeita o ritmo de quem ainda está aprendendo a ser gente.
Celulares, tablets e televisões se tornaram parte do cotidiano das famílias. Eles estão na mesa do café, no banco de trás do carro, na sala de espera, no quarto antes de dormir. Em muitos lares, a tela surge como apoio, distração, companhia e até como solução para a rotina corrida dos adultos. Não há como negar: a tecnologia trouxe benefícios, facilitou o acesso à informação, aproximou pessoas e ampliou possibilidades educativas. O problema começa quando o uso deixa de ser pontual e passa a ocupar um espaço que deveria ser do desenvolvimento emocional, social e cognitivo da criança.
Nos últimos meses, um episódio amplamente comentado nas redes sociais reacendeu um alerta que já vinha sendo feito por especialistas, educadores e profissionais da saúde: o risco da exposição excessiva de crianças e adolescentes no ambiente digital. A repercussão foi tamanha porque trouxe à tona algo que muita gente preferia não enxergar. A internet, quando não mediada com responsabilidade, pode transformar a infância em produto, espetáculo e moeda de troca por curtidas, visualizações e engajamento.
Mais do que uma polêmica pontual, o debate escancarou uma realidade incômoda: muitas crianças estão sendo apresentadas ao mundo virtual de forma precoce, sem qualquer noção de consentimento, privacidade ou das consequências que essa exposição pode trazer no futuro. E o impacto disso não é superficial. Ele atravessa a autoestima, a forma como a criança se percebe, como constrói vínculos e como entende seu lugar no mundo.
O uso de telas na infância não é, por si só, um vilão. O problema está no excesso, na falta de limites claros e, principalmente, na ausência de mediação adulta. Crianças não possuem maturidade emocional nem estrutura cognitiva para interpretar tudo o que veem. Elas absorvem comportamentos, repetem falas, internalizam padrões e passam a entender aquilo como normal — mesmo quando não é.
Quando uma criança passa horas consumindo conteúdos que estimulam a comparação, a performance constante ou a exposição exagerada, ela aprende, ainda muito cedo, que precisa agradar, aparecer e ser vista para ter valor. Esse aprendizado silencioso pode gerar ansiedade, frustração e uma relação distorcida com a própria imagem.
Outro ponto delicado é a chamada adultização precoce. Trata-se de um processo em que crianças são incentivadas — direta ou indiretamente — a adotar comportamentos, posturas, linguagens e estéticas que não condizem com sua fase de desenvolvimento. Muitas vezes isso acontece de forma sutil, disfarçada de brincadeira ou entretenimento, mas o impacto é profundo. A infância perde espaço para uma cobrança que não deveria existir tão cedo.
No ambiente digital, essa adultização encontra terreno fértil. Plataformas são movidas por algoritmos que priorizam aquilo que prende atenção, gera reação e mantém o usuário conectado. Elas não fazem distinção entre o que é apropriado ou não para determinada faixa etária. O que importa é o desempenho do conteúdo. E quando crianças entram nesse jogo, o risco aumenta.
É importante lembrar que a internet não é um espaço neutro. Existe público de todos os tipos, inclusive pessoas mal-intencionadas. A exposição excessiva de crianças, especialmente quando envolve rotinas, hábitos, imagens frequentes ou comportamentos específicos, pode abrir brechas perigosas. A criança, nesse contexto, deixa de ser sujeito e passa a ser objeto de observação.
Além disso, existe um impacto direto na dinâmica familiar. Quando a rotina gira em torno da produção de conteúdo, gravações constantes e necessidade de manter uma imagem pública, a relação entre adultos e crianças pode se tornar desequilibrada. A espontaneidade dá lugar à encenação. O erro vira algo a ser evitado. O descanso precisa esperar. A infância, pouco a pouco, vai sendo moldada para caber em um roteiro.
Do ponto de vista emocional, especialistas alertam que crianças expostas de forma intensa ao ambiente digital podem desenvolver dificuldades de concentração, irritabilidade, problemas de sono e desafios na socialização fora das telas. O cérebro infantil está em formação e precisa de estímulos variados: movimento, interação humana, silêncio, tédio criativo e contato com o mundo real.
O tédio, inclusive, é um elemento fundamental do desenvolvimento. É nele que surgem a criatividade, a imaginação e a capacidade de lidar com frustrações. Quando a tela está sempre disponível para preencher qualquer espaço vazio, a criança perde a oportunidade de desenvolver essas habilidades essenciais para a vida adulta.
Outro aspecto pouco discutido é o direito à privacidade. Muitas crianças crescem com praticamente toda a sua vida registrada online, sem jamais terem escolhido isso. Fotos, vídeos, momentos íntimos, fases constrangedoras e comportamentos naturais da infância ficam eternizados na internet. No futuro, essa criança pode se tornar um adulto que nunca teve a chance de decidir o que gostaria ou não de compartilhar sobre si.
É preciso refletir: até que ponto estamos protegendo nossas crianças? E em que momento o desejo de compartilhar se sobrepõe ao cuidado?
A responsabilidade pelo uso saudável das telas não pode recair apenas sobre as crianças. Elas não têm condições de estabelecer limites sozinhas. Cabe aos adultos — pais, responsáveis, educadores e à sociedade como um todo — criar um ambiente mais seguro, consciente e equilibrado.
Isso passa por atitudes práticas, como definir horários para o uso de telas, escolher conteúdos adequados à idade, acompanhar o que está sendo consumido e, principalmente, conversar. O diálogo é uma das ferramentas mais poderosas na educação digital. Explicar, ouvir, orientar e estar presente faz toda a diferença.
Também é fundamental oferecer alternativas. Brincadeiras ao ar livre, leitura, jogos de tabuleiro, atividades manuais e momentos em família ajudam a reduzir a dependência das telas e fortalecem vínculos. A tecnologia pode coexistir com essas experiências, desde que não ocupe todo o espaço.
O recente debate que ganhou força nas redes sociais serviu como um espelho. Ele mostrou que muita coisa precisa ser repensada. Não se trata de apontar culpados ou demonizar quem usa a internet para trabalhar ou se expressar. Trata-se de entender que a infância precisa ser protegida com mais rigor, empatia e responsabilidade.
A sociedade avança rapidamente, mas o desenvolvimento humano não acompanha esse ritmo acelerado. Crianças precisam de tempo. Tempo para errar, para brincar, para crescer sem pressa. E cabe a nós garantir que esse tempo não seja roubado por likes, visualizações ou pela lógica impessoal dos algoritmos.
Preservar a infância é um compromisso coletivo. É escolher, todos os dias, o cuidado em vez da exposição excessiva. É lembrar que crianças não são conteúdo, não são personagens e não são estratégias de engajamento. Elas são pessoas em formação, merecedoras de respeito, proteção e amor.
Que este debate sirva não apenas como alerta, mas como ponto de partida para mudanças reais. Porque a infância acontece uma única vez. E o impacto das escolhas feitas hoje ecoará por toda a vida.